Uma nova espécie de felino acaba de entrar para a ciência
Um pequeno felino encontrado nas florestas montanhosas da Bolívia revelou uma história surpreendente. Após análises genéticas, pesquisadores confirmaram que o animal pertence a uma espécie até então desconhecida, batizada de Leopardus tilcayo.
A descoberta, publicada em 17 de setembro de 2026 na revista Current Biology, representa a primeira descrição de uma nova espécie de felino vivente em mais de um século. O estudo foi liderado pelo pesquisador brasileiro Eduardo Eizirik, da PUCRS, em parceria com cientistas da Bolívia e da Bélgica.
O Tilcayo vive nas Yungas bolivianas, uma região de florestas úmidas e montanhosas nos Andes. O animal mede aproximadamente 46 centímetros e pesa cerca de 1,4 kg, sendo menor que um gato doméstico médio. As primeiras evidências indicam atividade predominantemente noturna e alimentação baseada principalmente em pequenos roedores.
A confirmação veio após a análise genética de 38 felinos do gênero Leopardus, incluindo animais vivos e exemplares preservados em museus. Os pesquisadores descobriram que a linhagem do L. tilcayo está isolada geneticamente de seus parentes há aproximadamente 1,4 milhão de anos.
A pesquisa também identificou uma nova subespécie nas Yungas do Peru, denominada Leopardus tigrinus antisuyo.
Tilcayo e gato-maracajá
Apesar da aparência semelhante, o novo felino pode ser confundido com outros pequenos gatos selvagens, principalmente o gato-maracajá, Leopardus wiedii.
O maracajá é maior. Pode pesar entre 2,3 e 4,9 kg e medir de 46 a 69 cm de corpo. Sua cauda pode chegar a 52 cm. Possui olhos grandes, patas relativamente largas e uma cauda muito longa, características relacionadas ao seu excelente desempenho em árvores.
O Tilcayo, por sua vez, apresenta porte menor, com cerca de 1,4 kg no exemplar estudado. Sua identificação também não depende apenas da aparência. A grande diferença foi revelada pelo DNA.
Essa dificuldade de identificação mostra por que a genética se tornou uma ferramenta importante para estudar os pequenos felinos sul-americanos. Muitas dessas espécies apresentam padrões de pelagem muito semelhantes e podem ser confundidas em fotografias ou observações de campo.
Um detalhe chama atenção: os cientistas ainda conhecem muito pouco sobre o Tilcayo. Até agora, as informações estão baseadas em apenas dois indivíduos vivos estudados e em um pequeno número de registros obtidos por armadilhas fotográficas. A distribuição total, o tamanho da população e as principais ameaças ainda precisam ser investigados.
A descoberta também tem importância direta para a conservação. Com a confirmação de que existem diferentes espécies dentro do antigo grupo dos gatos-tigre, cada população precisa ser estudada individualmente. Os pesquisadores já encaminharam os resultados à União Internacional para a Conservação da Natureza, IUCN, para futuras avaliações de conservação.
O caso do Leopardus tilcayo mostra que, mesmo no século XXI, as florestas sul-americanas ainda guardam espécies desconhecidas pela ciência. E, neste caso, foi o DNA que revelou uma linhagem que permaneceu separada de seus parentes durante cerca de 1,4 milhão de anos.

