CETAS de Goiás fecha após surto viral e expõe um problema antigo no IBAMA: falta de recursos, sobrecarga e tentativas de silenciar quem ajuda

O fechamento temporário do CETAS de Goiânia para entrada e saída de aves, após a confirmação de um caso de avipoxvírus, reacendeu um alerta que já se tornou comum entre profissionais e voluntários da fauna: os Centros de Triagem do IBAMA enfrentam, há anos, um colapso silencioso.

Apesar do discurso oficial, a realidade dentro dos CETAS é completamente diferente das notas institucionais: falta comida, falta verba, falta equipe, falta planejamento — e sobra animal.

O caso de Goiás, divulgado com linguagem técnica, retrata apenas a superfície.

Nos bastidores, a situação é semelhante à vivida em outros estados: superlotação, risco sanitário alto e servidores sobrecarregados tentando fazer o impossível com o mínimo.

Um problema repetido: quando a fiscalização apreende, mas o CETAS não tem como receber

A lógica atual da gestão ambiental brasileira funciona de forma desequilibrada:

  • A fiscalização apreende grandes lotes de animais.
  • O CETAS é obrigado a receber todos.
  • Mas não recebe verba extra, nem reforço de pessoal.
  • A estrutura colapsa.
  • A culpa cai sobre quem está na ponta — servidores, voluntários e parceiros.

Isso aconteceu repetidas vezes no Rio Grande do Sul, onde o fluxo de apreensões se tornou simplesmente impossível de acompanhar.

Muitas das operações eram mal planejadas, sem análise de capacidade de recepção.

Se havia um pássaro irregular em um criadouro, levavam todos — dezenas, às vezes centenas.

O resultado era sempre o mesmo: o CETAS de Porto Alegre se transformava em um depósito de animais, sem apoio proporcional à quantidade entregue pelo próprio Estado.

Relato do presidente da FIC, Nelson Arrué: “O IBAMA me ligava pedindo comida. Os animais iam morrer de fome.”

Entre 2020 e 2024, o presidente da FIC, Nelson Arrué, acompanhou de perto essa crise que ninguém do governo admite publicamente.

Seu relato reforça a gravidade da situação.

Depoimento de Nelson Arrué

“Eu tive o grande prazer — e também a preocupação — de ajudar o CETAS inúmeras vezes.

Comprei 200, 300, 500 quilos de comida em diversas ocasiões, Pássaros e  papagaios não tinham comida, muitas vezes, a comida era contada para tantos dias ou se rezava que o pássaro ficasse bem para ir para a soltura.

Volta e meia analistas do IBAMA me ligavam diretamente perguntando se existia alguma parceria possível, porque não havia verba nem alimentação suficiente para a quantidade absurda de animais que chegava, na época como preside da Feors  fazíamos muitas reuniões no IBAMA e SEMA e eu acompanhava a dificuldade do IBAMA.

A fiscalização do Estado recolhia lotes inteiros, sem se preocupar se havia comida dentro do CETAS.

Se encontravam um pássaro irregular, levavam todos.

O CETAS de Porto Alegre virou um depósito de animais, superlotado e sem estrutura.

Até o final de 2024 eu fiz tudo que pude para ajudar o IBAMA a não deixar a fauna passar fome.”

Esse relato mostra aquilo que muitos servidores não podem dizer publicamente:

o sistema depende de ajuda externa para evitar tragédias diárias.

O caso de Goiás repete o mesmo padrão

O avipoxvírus é um agente altamente contagioso entre aves.

O fechamento temporário do CETAS de Goiânia para a entrada e saída de animais é correto e tecnicamente necessário.

Mas mostra um problema: qualquer surto paralisa o sistema inteiro, porque não existe margem operacional, nem plano de contingência robusto.

A nota oficial do órgão fala em:

  • quarentena
  • desinfecção
  • reorganização dos fluxos
  • monitoramento clínico

Tudo isso é indispensável, mas é igualmente inviável em centros que já trabalham no limite todos os dias.

O surto não é a causa da crise.

É a consequência da falta de estrutura crônica.

A verdade que ninguém dentro do órgão ambiental quer ouvir

Proteger a fauna exige muito mais do que apreender animais.

Exige responsabilidade, estrutura, planejamento e coragem para enfrentar a realidade.

Mas no Brasil, quando alguém fala a verdade — quando você expõe que:

  • 600 pássaros chegam em uma semana,
  • depois mais 1.200 entram em apenas três dias pela Polícia Rodoviária,
  • entre eles cardeais, tupis, cravinas, papagaios filhotes, araras,
  • equipes ficam desesperadas, chorando, sem conseguir dar conta,
  • e a estrutura do CETAS simplesmente não suporta…

… a resposta de dentro do órgão estadual não é solucionar o problema.

É calar quem denuncia.

Quando você cobra responsabilidade, quando coloca números, vídeos e relatórios na mesa, quando mostra que o modelo de apreensões sem critério é insustentável, a reação é conhecida:

  • injúria,
  • Denúncias
  • difamação,
  • tentativa de destruir reputações,
  • afastamento dos verdadeiros parceiros.

Eu presenciei isso.

Tive a Policia Federal no meu apartamento em Dezembro de 2024 por denúncia de fabricação de anilhas falsas na minha empresa, situação que não foi provado conforme a perícia da máquina, está mesma empresa que matou  a fome através de doações de  centenas de sementes doadas por fiscalização da SEMA.

Eu vi profissionais sérios do IBAMA pedindo socorro.

Vi voluntários sendo menosprezados porque cobravam e para o estadincomodavam.

Vi analistas pressionados pelo próprio sistema enquanto tentavam cuidar de animais agonizando, famintos, debilitados.

E vi também a presença — sempre presente — de pessoas de mau caráter dentro do órgão ambiental, que preferem proteger seu poder interno do que proteger a fauna.

Conclusão — O Brasil que não funciona para a fauna

Esse é o Brasil.

Um Brasil onde:

  • apreender é fácil,
  • fiscalizar dá visibilidade,
  • mas cuidar não dá voto, não dá manchete, não dá prestígio.

Um Brasil onde a fauna silvestre está entrando em extinção não pela falta de leis, mas pela falta de gestão, estrutura e coragem institucional.

Um Brasil onde quem ajuda é atacado.

Onde quem fala a verdade é perseguido.

E onde milhares de animais continuam sofrendo porque o Estado não assume o que realmente acontece dentro dos seus próprios centros.

Enquanto nada mudar, os CETAS continuarão colapsando, Goiás continuará repetindo Rio Grande do Sul, e a fauna brasileira seguirá sangrando em silêncio — apesar de todos os discursos bonitos.

E os verdadeiros voluntários, parceiros e defensores dos animais continuarão sendo afastados por um sistema que prefere o silêncio à verdade.

Matéria. Eduardo Gouveia

Fotos Google Fotos

 

Notícias relacionadas